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terça-feira, 4 de junho de 2013

Chuva Mortal

Houve uma época em que os dias de chuva significavam dias de mortes e mistérios na pequena cidade de Lucópolis. Esses sinistros começaram em torno de 1989, ninguém na cidade se lembra direito da data e nem sabem se o terror terminou, mas todos já ouviram falar das histórias.

Tudo teve início com a grande tempestade, que de certa forma destruiu a cidade, ficando alagada e com casas destruídas, mas ninguém morrera por causa da chuva. Morreram por algo que vivia na estação de águas da cidade.


O caso começou a ser investigado quando cinco garotos estavam voltando para suas respectivas casas após mais um sábado de diversão entre amigos e quando atravessavam um terreno baldio que usavam como atalho, viram o que parecia ser um homem caído próximo ao muro que cercava o terreno. Não era possível ter certeza do que se tratava, então decidiram chegar mais perto para ver e quando viram o que era, se arrependeram de ter atravessado o terreno aquele dia.

O corpo estava virado para cima e em avançado estado de putrefação, vestindo apenas alguns trapos; o tronco estava com três marcas de mordida que não pertenciam a nenhum animal conhecido, pois as marcas eram bem grandes e possuíam um formato estranho, mas o inusitado veio com o reconhecimento do corpo: tratava-se de Raúl, um conhecido senhor aposentado que havia desaparecido no ano anterior.


E nos meses seguintes isso se tornou repetitivo pela cidade: sempre que uma chuva mais forte caía sobre Lucópolis, um corpo era encontrado com estranhas marcas de mordidas anormais. As vítimas variavam entre homens, mulheres e crianças, tendo apenas em comum o fato de serem pessoas desaparecidas no ano anterior.

Quando a época de chuvas torrenciais chegava à cidade, a maioria das pessoas entravam em pânico, preferindo passar esse tempo afastado da cidade e retornar apenas quando terminasse, mas quem se arriscava a ficar na cidade afirmava ver um vulto indo rapidamente em direção à estação de tratamento de água nos arredores da cidade. Ninguém polícia acreditava nessa teoria, pois as testemunhas não eram confiáveis sendo geralmente mendigos, apenas uma pessoa acreditou nisso.

Carlos era um velho policial aposentado da cidade que já vira muitas coisas estranhas ocorrer em Lucópolis e nas cidades vizinhas, portanto não desacreditava nesses boatos e como tudo tinha a ver com a chuva ficava ainda mais intrigado com o caso. Sempre odiou chuva toda sua vida, devido a um trauma sofrido em conseqüência a um acidente de carro junto aos seus pais, um acidente que foi fatal aos dois quando ainda era apenas uma criança, mas se havia algo que odiava mais que a chuva, era o medo contido na população.

E foi a partir disso que começou a investigar o que ocorria por conta própria: Fazia rondas em seu carro durante a madrugada, sempre acompanhado com uma garrafa térmica de café ao seu lado. Foram alguns dias de ronda sem nenhum resultado, mas na madrugada de uma terça-feira, quando estava passando próximo à estação de água, conseguiu ver à distância, mesmo com os vidros embaçados, o que parecia ser um homem de alta estatura, talvez uns dois metros, saindo apressado da estação.

Como o homem estava em um terreno impossível de se chegar com um veículo, Carlos desceu do carro já trajando sua capa de chuva amarela, segurando uma lanterna na mão esquerda e seu velho revólver calibre 38, que já estava sem uso há mais de trinta anos, na mão direita. Era uma tortura pessoal sentir os pingos de chuva caindo sobre seu corpo, mas mesmo assim criava forças para avançar, havia treinado seu psicológico nos últimos dias em caso essa situação acontecesse.

Sabia que era muito suspeito um homem estar naquela área da cidade durante a madrugada e tinha quase certeza de que tinha alguma relação com o caso, e quanto mais Carlos andava em sua direção, o homem também começou a andar de encontro a Carlos, e durante isso a chuva aumentava de intensidade, fazendo com que Carlos começasse a sentir o medo subindo sua espinha. Fazia muito tempo que não saía de casa com uma forte chuva como aquela e nem se lembrava de como isso o fazia ficar apavorado, mas quando chegou próximo ao homem, talvez uns dez metros, e a luz da lanterna iluminou seu rosto, todo o medo e tensão foram embora.

O misterioso homem era Paulo, velho morador conhecido pela cidade e que também estava desaparecido por um ano, muita gente achava que havia ido embora devido ao terror que as chuvas traziam, mas mais estranho que aquilo era o fato dele estar com a estatura um pouco maior que o normal e um porte físico mais avantajado; a pele enrugada com um tom de branco doentio, não possuía mais nenhum fio de cabelo, os olhos estavam vermelhos e as roupas pareciam um trapo, e quando Carlos somou todos os fatores, sentiu um medo muito maior do que o da chuva dominar seu corpo.

Estava cara a cara com a criatura e em poucos instantes tudo o que lhe perturbou a maior parte da vida ficou claro. Quando se deu conta percebeu que estava tremendo e sentiu o corpo gelado e a criatura, que estava logo à frente lhe encarando, deu-lhe um sorriso demoníaco, que revelaram grandes e horríveis dentes afiados, que lembravam os dentes de um tubarão.

Após alguns segundos conseguiu recuperar os sentidos e conseguiu apontar com sua arma para a criatura, mas quando tentou apertar o gatilho pela primeira vez, o pesadelo branco foi correndo em sua direção com uma enorme velocidade que o impediu de fazer isso.

Caiu de costas no capô do carro sentindo uma terrível dor e derrubando a arma e a lanterna na terra úmida que estava em seus pés. A criatura lhe segurava pelo pescoço com a mão direita e quando levantou a esquerda, Carlos conseguiu ver suas unhas crescendo, se transformando em garras e logo em seguida sentiu-as perfurando levemente sua barriga, e quando iria gritar pela dor sofrida, a criatura abaixou-se rapidamente e mordeu algumas vezes seu pescoço, peito e braços. A cada mordida em que sentia sua carne sendo rasgada por aqueles dentes afiados, conseguia sentir uma espécie de veneno penetrando em seu sangue, o que fazia a dor aumentar ainda mais.

Quando sentiu que iria se entregar para a escuridão eterna, encontrou forças suficientes para dar um soco no peito da criatura e afastá-la de cima de seu corpo, e mesmo podendo sentir um pedaço da carne de seu pescoço saindo junto à boca da criatura, sentiu que não teve muita resistência para tirá-la de cima de seu corpo.

Levantou-se do capô e agora se encontrava sem forças e começou a ter a visão turva, mas antes que desabasse no chão, pôde ver a criatura caída imóvel. Estava com o sangue fresco das recentes mordidas em volta da boca, mas já não era mais a horrenda criatura branca que estava lá: era apenas o corpo do antigo morador da cidade, com sua aparência humana de volta e com o abdome despedaçado. Foi a última coisa que viu antes de cair de costas no chão.

Olhava o céu noturno com a chuva caindo fortemente em seu rosto e sentia muito sangue saindo de seu tronco e pescoço, não tinha forças para se levantar e ir embora, apenas ficou deitado até fechar os olhos e tudo o que viu foi apenas escuridão.

Abriu os olhos novamente. A forte chuva já havia cessado, mas uma garoa ainda caía dos céus e ainda estava de madrugada, talvez quase amanhecendo. Olhou para o lado e viu que o corpo ainda estava imóvel da mesma forma que antes e sentia força suficiente para se levantar e não sentia mais dores e nem o sangue saindo de seu corpo. Tudo mais estava exatamente como antes, o carro parado logo atrás, a lanterna quebrada espalhada pelo chão e a arma caída, e quando entrou em seu carro se sentia muito mais disposto do que antes e sentia muita fome. Olhou para o retrovisor e viu como estava de verdade: com a pele branca demais como se fosse um albino, os olhos estavam vermelhos e seu cabelo havia caído e sentia muita fome de sangue humano.

Como uma pancada em sua cabeça tudo fez sentido: Paulo havia transferido sua terrível maldição para Carlos, assim como todos antes dele e agora ela pertencia a Carlos ou era ele quem pertencia a ela. Em sua cabeça sabia exatamente aonde deveria ir: para o casulo no fundo da estação aonde iria hibernar até o ano seguinte quando poderia poder satisfazer sua fome demoníaca e passaria para outro amaldiçoado.

Créditos: Rafa Magiolino

Um comentário:

  1. Muito bom...
    dava pra ser ate enredo de curta de terror...

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